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A Ciência da Comercialização

Durante esses últimos anos, andando por todos os cantos do país, e sempre de olho no que estava acontecendo lá fora, investiguei várias iniciativas que procuraram remodelar o processo de comercialização das flores e plantas.

Sempre que você olha a árvore, ao invés da floresta, simplesmente perde a oportunidade de fazer uma ligação entre os eventos, como eles se relacionam e como deveria ser a leitura de alternativas para o produtor.

Pois bem, essa noite isso tudo me veio a cabeça e vou tentar fazer um painel onde se possa analisar e definir os principais “fronts” do novo jogo da comercialização para ornamentais.

Caracterização do ambiente:

Excesso de oferta: há muito produto, muitos produtores e muitas alternativas para o consumidor (florista, supermercado, Ceasa, barracas, informais, lojas 1.99, etc)


Desvalorização do produto: na estória natural de qualquer produto essa fase se apresenta quando o mercado está trocando de fase. Em geral a vacina contra esse problema é a exploração de nichos de mercado (novos tipos de decoração com flores, assinatura de flores) ou o ganho de escala na comercialização (bouquets prontos em supermercados).


Problemas de seleção do produto: é como morrer de sede em frente ao mar. Com a queda de rentabilidade no produtor a produtividade e a classificação de produtos tendem a ser os primeiros itens a ser afetados. Isso dificulta a abertura de novos nichos de mercado. Para flores estamos no limiar da migração da fase preço/produto para a fase ponto/promoção.


Oportunidades de mercado são geradas pelo poder do capital na distribuição: em um ambiente canibalistico somente quem tem capital pode se dar ao luxo de abrir novos modelos de negócios para o produto. De outro lado, essa vantagem competitiva se torna crucialmente decisiva no sucesso da empresa uma vez que seus competidores não terão recursos para importuná-la em sua nova esfera de vendas. É como se mudar para o andar de cima do prédio, deixando o restante do mercado “aos leões”.


Dificuldade de lançamento de novos produtos: o consumidor final está desinformado sobre nossos produtos. Quando os novos lançamentos são gerados dentro do contexto atual de comercialização tendem a ser ignorados ou sub valorizados. Dessa forma o poder da inovação se perde e com ele vai junto toda oxigenação da cadeia. A exploração de nichos de mercado e de novos modelos de negócios se configuram novamente como ação estratégica para restabelecer a rentabilidade do produtor, uma vez que aumentam as chances de sucesso dos novos produtos e das inovações.

Dessa forma a equação fundamental para sucesso na comercialização envolve algumas palavras chave:

Sair do mesmo patamar de concorrência dos demais produtores

Melhoria da classificação dos produtos

Exploração de nichos de mercado e novos formatos de negócio baseados em aplicação intensiva de capital na distribuição e varejo

Apoiar-se na inovação e no lançamento de novos produtos para esses mercados

VETORES PARA NOVOS MERCADOS EM ORNAMENTAIS

Não importa em que elo da cadeia você está localizado (produtor, atacadista, insumos, Comercialização, Varejo, fomento, pesquisa, etc) é preciso estabelecer um novo “norte” como objetivo para que se possa orientar sua estratégia de ação.

Nesse momento estão claros 3 nortes como principais alternativas de novos modelos de negócios para as ornamentais:

(1) Exportação

(2) Compra casual

(3) Transformar o produto em serviço

 


 

(1) Exportação

Dispensa apresentações, pois tem sido alvo de debates e atenção nos últimos 3 anos. Vale apenas ressaltar o fluxo básico dos seus desafios e de onde estamos pecando mais:

Fase

Avaliação atual

Mix de produtos

Temos seguido aquilo que é mundial para tropicais e temos experiências com produtos licenciados para as rosas do Ceara. Nos primeiros ainda falta a ampliação do mix, para variedades que produzam o ano todo. Nas temperadas é preciso acesso a novas variedades patenteadas para ampliar nossa competitividade.

Qualidade

É boa em ambos os casos (tropicais e temperadas)

Volume

Baixo volume de produtos com classificação adequada para exportação em tropicais. Nas temperadas os volumes são satisfatórios, mas temos um leque limitado de espécies “autorizadas” (em situação ok quanto a royaltes)

Freqüência

Para tropicais esse vem a ser um problema importante uma vez que não há um mix que produza o mesmo volume durante todo o ano. Ademais, os produtores tem se focado em aumento de área ao invés do aumento da produtividade o que somente eleva o risco da produção. Para temperadas o problema da sazonalidade se dá pela exploração somente das datas de pico internacionais.

Classificação

Para as temperadas esse problema já foi superado.Para as tropicais essa barreira tem se mostrado intransponível. Ainda não acertamos, ao que parece, nem na definição e nem no packing house quanto a esse item.

Embalagem

Devido a grandeza dos 2 itens anteriores, o problema da embalagem acaba se tornando menor, ainda que relevante e urgente.

Custo logístico

Tem a ver com a escolha do mix de produtos, com o padrão de comercialização, com as embalagens escolhidas e finalmente com o transporte aéreo. Infelizmente estamos nos concentrando hoje somente nesse último ítem (transporte aéreo).

 


 

(2) Compra Casual

 

Para aqueles que vem no mercado interno seu objetivo principal (e até porque o esforço exportador acaba gerando mais oferta também no mercado nacional), o limite para as atuais motivações de consumo já foi alcançado.

As datas de pico, as compras programadas (aniversários) e as decorações tradicionais já não escoam a produção e você sabe muito bem disso, olhando para suas perdas, seus problemas de recebimento ou para o comportamento dos preços.

Pelo mundo afora o problema é o mesmo e a saída tem sido atacar a compra casual. Aquela por impulso. O grande cliente para essa nova motivação de consumo é a mulher.

(*) Alguns exemplos:

A venda de bouquets  colombianos (flores temperadas) ou da Costa Rica (tropicais) em supermercados americanos

A venda  direta de produtos do Hawai para os consumidores americanos

A venda de flores pela Hallmark

A experiência da Casa das Flores na Expoflora

O projeto “6ª feira é dia de flores” do BBH na Inglaterra

A rede Kabloom no EUA

O estudo do impacto emocional das flores feito pela SAF (também nos EUA)

Para esses casos vale o poder do capital, na criação de um novo modelo de negócios. Em todos eles existe investimento em produto, em distribuição, em varejo e em promoção.

Ter capital é um desafio, mas a barreira competitiva que se pode alcançar com uma estratégia de capital proporciona resultados que se justificam. Para flores, ter capital quase sempre se resume em trabalhar coletivamente, porém com as feridas de relacionamento causados pelos problemas da comercialização atual, não conseguimos superar essa barreira, e ai não temos capital, e enfim não chegamos a doce terra onde jorram o mel e o leite.

 

(*) Você pode ver mais sobre esses projetos no livro “Por que as pessoas (não) compram flores”

(**) Outra oportunidade é a missão Tecnica para EUA que faremos em janeiro 2005.

 


 

(3) Transformando produtos em serviços

 

A última fronteira e talvez a mais enigmática é o processo de transformar um produto em um serviço. As características dessa estratégia são:

Barreira de capital ou de tecnologia como bloqueio de novos competidores

Inovação logística criando um novo modelo de negócios. “Nunca havia se pensado fazer uma venda dessa maneira”

Receitas baseadas em pequeno custo para cada cliente individual, mas com uma grande receita ao fornecedor (produtor) devido a amplitude de escala que se alcança.

(*) É preciso todo esforço empreendedor para “parir” o modelo

 

Alguns exemplos de negócios com essa estratégia:

a)Xerox: até a década de 80 a xerox dominou o mercado substituindo a venda de suas copiadoras por um contrato de leasing. O produto ficava mais acessível as empresas pequenas e medias e a ampla distribuição alcançada possibilitou a Xerox montar um lucrativo negócios de venda de toner.

b)Acesso WEB: de todos os modelos de negócios novos criados para a web nenhum é mais sucesso do que o dos provedores de acesso. Esse nicho atraiu o interesse das operadoras de telefone que viram no PC um novo ponto de faturamento (de impulsos telefônicos).

c)TV por assinatura: quem diria que a venda de programação poderia fazer do aparelho de TV uma fonte de renda para as emissoras.

d)Filtro de água Brastemp: a empresa lançou há 3 anos (e vem crescendo ano a ano) um filtro de água que é colocado de graça na casa dos “assinantes”. Para isso o proprietário paga uma assinatura. Com a demanda atual por saúde e qualidade de vida o produto é um sucesso e só não cresce mais por limitações de atendimento. O aparelho, que não é barato, está gerando receitas para a empresa através da prestação de serviços.

e)Microsoft e Unysis: as gigantes da informática já perceberam que tanto a limitação de recursos para investimento nas empresas quanto a pirataria seriam gargalos para o futuro de seus negócios. Ambas tem projetos de aluguel dos seus softwares, ampliando assim o alcance dos produtos a um numero ilimitado de clientes.

 

Mas ai você vai falar “Isso é bonito mas não funciona para flores e plantas...”

Pensando dessa forma nunca será mesmo. Contudo já existem diversos exemplos de produtos que foram convertidos em serviços em nosso mercado:

a)No varejo: aluguel de plantas para eventos(1) e para empresas(2). Aluguel de orquídeas para vitrines de lojas e empresas (3). Assinatura de flores(4).

b)Orther Gatherer: fornecedores e empresas independentes que promovem a compra de flores e plantas junto ao consumidor final. Elas repassam os pedidos recebidos para as lojas e ganham comissão sobre isso.

c)Na produção: os integradores que juntam a oferta para atender os clientes da exportação saíram em muitos casos da produção (1). O caso citado da Bei Fiuri na edição passada, onde temos uma integração com fornecimento das mudas e recompra do produto final, transformou o produtor em prestador de serviços(2).

 

Outros modelos ainda podem ser explorados: (1)quem sabe ter um expositor exclusivo em todas as floriculturas ou outros pontos alternativos, de propriedade do fornecedor, onde o ponto recebe uma comissão. O produtor passa de fornecedor a contratante da loja.

Lembre-se dos parâmetros citados para esse vetor: é preciso ser empreendedor!

Isso e muito mais você poderá discutir no CURSO DE VENDAS PARA PRODUTORES que será realizado de 14 a 16 de junho antecedendo a Hortitec.

 

Boa semana.

Augusto Aki

 

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